O lançamento da nova marca da Avon levantou um debate técnico essencial para qualquer negócio: até que ponto devemos sacrificar a nossa história em nome da otimização digital?
A marca anunciou sua nova identidade visual e a minha análise como profissional da área é cirúrgica: a gigante da beleza sucumbiu ao “Blanding”. Para se adaptar à exigência das telas deste novo momento da internet de 2026, a Avon abriu mão de detalhes clássicos em troca de uma tipografia puramente geométrica e simplificada.

A linha tênue entre eficiência e o “Blanding”
O grande acerto técnico da nova marca da Avon é a sua escalabilidade na tela. A nova identidade, incluindo o novo monograma “AV”, é impecável para o digital. Ela não estoura em resoluções baixas e funciona perfeitamente bem no pequeno ícone de um aplicativo mobile. É a eficiência máxima exigida pela nova era.
O erro, no entanto, mora na padronização. Quando você retira os traços que trazem herança e tradição — um movimento que o mercado global de design critica abertamente e chama de Blanding (uma mistura da palavra branding com bland, que significa “sem graça” ou “insípido” em inglês) —, você facilita a aplicação, mas dificulta drasticamente a diferenciação no Ponto de Venda (PDV) e na rolagem do feed. A marca corre o risco de virar apenas mais uma ao trocar a sua personalidade única pela simples eficiência do algoritmo.
Para uma Análise de Perfil profunda dessa movimentação, separei 3 pontos frios do projeto:
- 1. A Morte da serifa (e da herança): Adotar uma fonte reta e geométrica é um movimento para gritar “somos modernos”. O problema é que marcas de beleza centenárias carregam autoridade na sua tradição. Ao limar a serifa, a nova marca da Avon se aproxima da estética de uma startup de tecnologia do Vale do Silício. Ela fica extremamente legível nas telas, mas perde aquele aspecto humano, elegante e clássico que transmite confiança.
- 2. A Psicologia da paleta digital (o fim da suavidade): A marca abandonou os tons seguros por uma paleta de alto contraste, focada em vermelhos e rosas hiper-vibrantes. Como destacado no lançamento oficial mapeado pelo Meio & Mensagem, o foco é a ousadia. O acerto: essa saturação tem um poder de parada (stopping power) imenso na rolagem do TikTok e Instagram, atraindo a Geração Z. A crítica cirúrgica: cores tão saturadas e “digitais” perdem o aspecto tátil, orgânico e de “cuidado pessoal” que a base de clientes da Avon sempre buscou. A cor parou de abraçar e passou a gritar.
- 3. O peso do “A” e a homogeneização: No logotipo anterior, a letra “A” era a protagonista, um símbolo forte e isolado. No novo design, ele foi planificado e se mistura à massa do texto. Ao simplificar demais para caber em avatares de redes sociais, a marca entra no perigoso território do Blanding (a padronização onde todas as marcas ficam iguais). A empresa facilita a leitura, mas abre mão de ter um símbolo único que seja reconhecido instantaneamente no PDV.
Mais uma marca “genérica”?
Se observar os grandes reposicionamentos dos últimos anos — desde grifes de luxo como Yves Saint Laurent, Balmain e Burberry, até gigantes como Google, Spotify e Airbnb —, vai notar que quase todas fizeram o exato mesmo movimento. Elas abandonaram fontes com personalidade, serifas, pesos diferentes e traços únicos, e adotaram uma tipografia geométrica reta, a famosa Sans-Serif.
Se você tirar as cores e colocar os novos logos dessas empresas lado a lado em preto e branco, eles parecem ter sido digitados pela mesma pessoa no mesmo programa. A tipografia deixou de contar a história visual da marca e virou apenas uma ferramenta pragmática de leitura.

A Avon tinha uma assinatura visual que carregava o peso da sua tradição. A nova fonte é inegavelmente mais limpa e eficiente para o e-commerce. Mas, esteticamente falando, ela entrou na mesma fôrma que milhares de outras empresas estão usando para não ficar para trás. É o famoso “funciona muito bem, mas perdeu a alma”.

O Veredito: Mudar o logo é fácil, mudar a percepção é o desafio!
No meu dia a dia criando identidades visuais e analisando o perfil de diversas empresas, a realidade que eu vejo é uma só: um logo bonito não salva um posicionamento ruim!
A nova “embalagem” da Avon parece perfeitamente otimizada para o e-commerce rápido e para os algoritmos. Mas a pergunta que fica é: será que essa estética asséptica e agressiva ainda conversa e gera pertencimento com a revendedora clássica e a consumidora que construíram o império da marca? Trocar a sua essência única por uma tipografia genérica da moda é uma aposta altíssima!
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